14.8.06

Todo mundo tem o dever de achar que pode mudar o mundo

Diante do incontestável crescimento do crime organizado no Brasil, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, é preocupante a questão da relativização dos direitos humanos. Uma pesquisa recente do Instituto Datafolha, encomendanda tela TV Globo e pelo jornal Folha de São Paulo, mostrou que a maioria dos entrevistados (51%) se manifestou a favor da adoção da pena de morte no Brasil (42% eram contra). Tais estatítiscas demonstram que grande parte dos brasileiros acreditada que a pena capital seria útil no combate à violência. Fazendo uma pesquisa rápida por comunidades no orkut usando como palavras-chave "direitos-humanos" vemos que comunidades contra os direitos humanos "para bandidos" tem até o dobro de membros da maior comunidades de simplesmente direitos humanos. Aonde eu estou querendo chegar com isso tudo? Bem, vimos esse final de semana que o crime organizado no Brasil chegou a um novo patamar, o seqüestro de um repórter e um cinegrafista da Globo, com o objetivo de obrigar a emissora a veicular um vídeo em que os seqüestradores falavam "em nome da população carcerária de São Paulo" exigindo o fim do RDD, que "vai contra o princípio de ressocialização do preso", entre outras coisas, é uma evidência de que as facções criminosas brasileiras estão agora ao nível das piores organizações criminosas do mundo, como a máfia italiana e o cartel de Pablo Escobar.

Não quero aqui fazer um discursinho de esquerda e defender coisas que são óbvias para todos: é preciso uma ação coordenada entre as esferas de poder, já passou da hora de acabar com essas disputinhas eleitoreiras entre Estados e União. Que se decrete estado de emergência, e se emende a Constituição se for preciso para que o Exército possa atuar contra o tráfico. Que se invista em educação massivamente para parar com a "fábrica de meliantes". Isso é mais que óbvio. Mas o que me preocupa a relativização dos diretos humanos. É natural que o pensamento do população tenda a ficar mais radical com relação ao combate ao crime, é auto-defesa. Você se vê enclausurado dentro da sua casa, quando sai na rua parece que está atravessando um campo de guerra, olha pra todos os lados, atravessa a rua quando vê alguém suspeito, mesmo assim é assaltado, agredido, seqüestrado. Isso não é vida. Por isso, idéias como a "pena de morte" começam a ficar cada vez mais atraentes: "pra que ficar gastando dinheiro com esses vagabundos, porque não mata tudo logo", "na ditadura não tinha essa vergonha toda".

Acontece que a gente concentra toda a nossa raiva em pessoas que são o reflexo de um problema maior. A violência não acontece de baixo para cima, do pobre contra o rico. A raiz do problema está na corrupção, está nos deputados, senadores, juízes. Só que é muito fácil negar sua parcela de culpa nos problemas do país, ninguém lembra em quem votou pra deputado federal nas ultimas eleições, ninguém sabe dizer que projetos de lei esse deputado criou ou se o patrimônio dele cresceu durante o mandato. "Mas ninguém presta". Daí o voto nulo. "Não vou votar em ninguém, meu voto vai ser um protesto". É bem mais fácil do que entrar no site do TRE e ver a prestação de contas dos deputados.

O problema é nosso. A "pouca vergonha" é nossa. Somos nós. A lei está lá, no papel, no Código Penal, na Constituição. Mas nós não temos o dever de cumprir a lei, os outros tem. Pensamos muito nos nossos direitos e esquecemos que temos deveres. Todos tem direitos e deveres, e direitos e deveres iguais! "Ah, mas os bandidos não respeitam a lei". Que sejam presos então. Que tenham direito a um julgamento, se forem primários, cumpram em liberdade, se forem condenados fiquem na prisão para se ressocializar, e não para se especializar no crime. O cumprimento da lei, como ele existe, é mais do que suficiente para que sejamos uma democracia de fato, e não apenas no papel. O problema é que nós não elegemos pessoas boas o suficiente para fazer isso.

Beijos.