24.8.06

Um dia de paz.

Fui hoje fazer minha inscrição, muito humildemente, de sandália de dedo e saia jeans. Estava na fila esperando a minha vez, como sempre, e percebi uma movimentação estranha nas escadarias dos salão principal. Pessoas muito bem vestidas, ternos impecáveis, austeras. Até ai nada estranho, coisa comum em faculdade de Direito, sempre há congressos, seminários, como em qualquer outra faculdade, só diferenciados pela formalidade das indumentárias dos senhores doutores excelências que participam.

Feita a inscrição (9 disciplinas, o limite de créditos, esse semestre eu vou ralar...), estou saindo da faculdade e tomo um grande susto. Duas viaturas da Polícia Militar paradas na porta da faculdade, com oficiais empunhando seus rifles ou metralhadoras sei lá - nada estranho também dado que o Morro do Palácio, exatamente ao lado da faculdade, é um dos mais lucrativos de Niterói. Entramos assustadas e um amigo foi tentar descobrir o que estava acontecendo e se era seguro sair. Pra nossa surpresa, ele voltou com a informação de que não havia apenas duas caminhonetes da PM, mas uma Frontier da Polícia Federal, alguns policiais militares de moto, além de diversos agentes e oficiais espalhados pela rua.

A primeira coisa que pensamos foi que poderia ser algum tipo de operação para executar mandatos, dessas que aparecem toda hora no jornal, mas então, alguém ligou os fatos: "deve haver alguém importante aí".

Fui na Secretaria e perguntei para a funcionário se estava acontecendo algum evento no Salão Nobre:

- Sim, o presidente do STJ está aí.

Não demorou muito para descobrirmos mais:

http://www.noticias.uff.br/noticias/2006/08/seminario-jurisdicao-01.php

Um seminário internacional em que se encontravam o reitor da UFF, o já citado presidente do STJ e do CJF, o presidente da Assossiação de Juízes Federais do Brasil e o ministro do Tribunal Constitucional da Alemanha. Além de "autoridades judiciais da França, Portugal, Alemanha e Espanha."

Sem desmerecer a importância de cada um desses indivíduos devido aos seus notórios cargos, me pergunto se a presença deles justifica tamanha preocupação com sua segurança. Porque pelo menos uma vez por semana eu ouço falar na faculdade de alguém que foi assaltado ou teve o carro roubado, isso quando não há nenhum assassinato. Chega a ser irônico, mas quando eu estava descendo do carro hoje para fazer a inscrição um senhor falou para tomarmos muito cuidado que "ontem um carro em que estavam duas meninas da UFF foi roubado". Então, me sinto uma cidadã de segunda classe, alguém que não tem importância suficiente para justificar uma operação de guerra por minha segurança, uma pessoa que tem que se esqueirar, correr para chegar na faculdade sem ser assaltada.

Todo esse tempo que eu estudo na Faculdade de Direito da UFF, somente um dia eu me senti segura, somente um dia eu pode andar com a bolsa na mão e entrar no carro sem a neurose de procurar ao redor por "pessoas suspeitas", foi hoje. Não porque isso seja o minímo que se espera de uma sociedade de se diz pacífica, alheia à guerra, mas sim porque Vossa Excelência, o Ministro Raphael de Barros Monteiro Filho se encontrava na faculdade.

Beijos.